"É mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas a guerras foram declaradas." José Saramago

sábado, 21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

Aos Poetas

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.


Miguel Torga, in 'Odes'

terça-feira, 17 de março de 2009

Inacreditável



Recebi por mail um anúncio de emprego no mínimo caricato, ou então já chegámos a um ponto em que vale tudo por meia duzia de tostões... Se não vejamos: O anúncio pede um/a promotor/a de eventos para entrada imediata. Até aqui tudo normal, mas passemos então aos requisitos exigidos pela entidade empregadora. E estes são apenas: Sensibilidade comercial, conhecimentos de geografia mundial, experiência em funções administrativas, capacidade de negociação internacional, fluência de inglês e francês (falado e escrito), e ainda o conhecimento dos seguintes idiomas: Mandarim, japonês, polaco, árabe, checo, romeno, sérvio. Para concluir basta ter a carta de condução...
Não é para todos muito menos para jovens que não podem ter mais de 30 anos como exige a empresa. Ainda assim, e na esperança de que apareçam bastantes candidatos, a empresa oferece 600 euros de ordenado mais um subsídio de refeição que também não é para todos (6 euros 41 centimos).

É absolutamente extraordinária esta tentativa de exploração, mas creio que não irão longe, pois se ainda havia alguém em Portugal com todos estes requisitos e vontade de trabalhar na promoção de eventos... Depois de ler o anúncio decidiu emigrar de vez.

Gostava de ser mosca para ver os C.V. que estão a ser recebidos por esta empresa, mas acredito que mais absurdos que o anúncio não serão...

A oferta aqui

Encostei-me



Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos —
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.



Álvaro de Campos